quarta-feira, fevereiro 22

Ah! Cem vidas!

Deitar-me-ei agora. Pois por muito esperar,
achei que fosse apenas longa demora,
e assim pus-me a universos inteiros cantar.

Deitar-me-ei agora entregue a este repouso sereno,
entregue ao meu sonho de ser silêncio profundo,
e esquecimento terreno.

Deitar-me-ei agora, em meu leito feito de folhas
de um outono sem peso ou lembranças, adormecerei,
A tez lívida imperturbada em bem aventurança.

Partirei, ainda que, quisera eu agora e cem mais vidas
permanecer permeando as horas como bravias vozes
das ondas e odes contra as pedras do mar.

Quisera eu ser o vento em qualquer lugar,
o leito enigmático de amantes, seus segredos impronunciáveis,
e tudo mais que coubesse no entre terra, céu e mar.

Ser o fogo, o fogo do ser, maiores que o tempo,
minhas quimeras, carregar o florescer...
Tudo isso imensamente, um dia, eu imensa quisera.

Quisera eu já ser inteira e ser o verbo inteiro amar.

Mas, apenas, deitar-me-ei agora que já estou toda exposta
E em pedaços. Deitar-me-ei, que não há mais esperas
Ou demoras, preces ou sacrifícios.

Que não há mais sedes insaciáveis, ou medos invencíveis.
Encontro-me leve e silenciosa. E gozando inteira liberdade,
Fechar-me-ei os olhos cobertos de graça (permita-me!)
e deitar-me-ei em deleite para além dos tempos. Partirei.

Ah! Mais cem vidas!
Mais cem vidas para dar!
Cem mil vidas para amar!

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